Texto 1

No auge da fraude do leite, em 2013, os funcionários do Lanagro, órgão do Ministério da Agricultura, viravam turnos para atender a demanda de análises para determinar as adulterações e repassar os laudos necessários para bloquear os lotes de leite comprometidos. O teste utilizado, padrão, disponível comercialmente, é laborioso e lento. Apenas para testar a contaminação por formol, os técnicos da instituição tem um limite de análise de seis amostras por dia, em um ensaio que usa 100ml (meio copo) de leite por amostra, e gera baldes de resíduos que precisam depois ser processados e descontaminados antes de ser descartados. Sem falar nos testes para os demais adulterantes além do formol. A direção voltou-se então para seu departamento de pesquisa, composto de cientistas mantidos com bolsas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), órgão federal financiador de pesquisas científicas. A pergunta era se haveria possibilidade de desenvolver e validar rapidamente um teste que processasse um número maior de amostras por dia, com igual eficácia. Os pesquisadores idealizaram um ensaio utilizando um equipamento de última geração, disponível no Lanagro, e padronizaram em meses um teste que analisava dezenas de contaminantes ao mesmo tempo, utilizando um volume de leite mil vezes menor por amostra – um pingo de conta-gotas. Orgulhosos, direção e pesquisadores comemoraram o feito. 

Há alguns meses, o CNPq anunciou que as bolsas dos pesquisadores do Lanagro seriam extintas em junho de 2015, devido ao corte de verbas que se propaga em ondas desde o início do ano em todas as instâncias de educação e ciência. (Adaptado de http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/proa/noticia/2015/08/pesquisa-cientifica-no-brasil-e-menosprezada-4825155.html)

 

Texto 2

Parte do depoimento de Dario Zamboni, pesquisador da Faculdade de Medicina da USP, Ribeirão Preto, à Revista Cell, uma das revistas mais importantes da área de biologia.

“Quando terminei meu pós-doc nos EUA, decidi não procurar empregos nos EUA e retornar ao Brasil para tentar fazer uma diferença aqui. No Brasil, encontrei vários desafios para fazer ciência de alto nível. Por exemplo, ainda é muito difícil importar reagentes para pesquisa. O sistema de financiamento no Brasil também é desafiador, porque muitas agências de fomento valorizam o número de trabalhos publicados por um cientista, em vez de favorecer a qualidade da ciência que é produzida.” (Adaptado de http://ciencia.estadao.com.br/blogs/herton-escobar/em-depoimento-a-cell-pesquisador-fala-das-dificuldades-de-fazer-pesquisa-de-alto-nivel-no-brasil/)

  

Texto 3

Trecho da entrevista concedida por Suzana Herculano-Houzel, neurocientista da UFRJ ao Caderno Zero Hora.

Depois de cursar mestrado nos Estados Unidos, doutorado na França e pós-doutorado na Alemanha, você voltou ao Brasil para dar seguimento à carreira de pesquisadora. Recentemente, repercutiu uma declaração sua classificando como “miseráveis” as condições em que se faz ciência aqui. Você cogitou até mesmo deixar o país. Você segue firme nesse propósito? Continuo pensando no assunto, vendo possibilidades. Fazer ciência no Brasil é inviável. No meu laboratório, ainda estamos esperando o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) honrar os contratos firmados com a gente. Mesma coisa com a Faperj (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro). Temos projetos aprovados no ano passado e no começo deste ano que ainda não foram pagos. A única maneira de eu continuar trabalhando tem sido tirar dinheiro do meu próprio bolso, e não posso mais fazer isso. É inviável há muito tempo, eu é que estou fingindo que não noto para poder continuar com o laboratório funcionando, para os meus alunos de pós-graduação poderem fazer o trabalho deles. Tudo que a gente precisa, reagentes, a maior parte dos equipamentos, tem que ser importado. Quando é obrigado a comprar aqui, paga de duas a três vezes o preço. Não é minha obrigação cumprir as funções do governo.

Apesar de tantas dificuldades, você se tornou uma das cientistas mais respeitadas do país. Ao que credita esse sucesso? Criei um nicho dentro da neurociência, abordando questões que são simples e que se achava que já estavam resolvidas. Muito longe disso. Em essência, meu trabalho gira em torno do que cérebros diferentes são feitos, quais são as regras de constituição de cérebros diferentes, quantos neurônios, qual é a relação entre o tamanho do cérebro e o número de neurônios, o que o cérebro humano tem de diferente. Quando você responde questões muito básicas dentro de uma área, é claro que essas respostas devem ter um impacto. Aliado a isso, desenvolvi um método próprio. Fizemos muitas coisas com poucos recursos. (Adaptado de http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/proa/noticia/2015/09/suzana-herculano-houzel-fazer-ciencia-no-brasil-e-inviavel-4856565.html)

 

Com base no textos acima e no seu conhecimento de mundo, escreva um texto dissertativo-argumentativo sobre o seguinte tema:

A ciência no Brasil: desafios para o seu desenvolvimento

 

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