Episódio 1: Ser ou não ser? Será que esta é a questão?

William Shakespeare, um grande escritor, ator e dramaturgo, desde o século XIV nos intriga com uma única frase: “Ser ou não ser, eis a questão”. Apesar da frase contemplar a lógica, causa dúvida até mesmo antes de sair dos lábios de Hamlet, pois, para Shakespeare, ou o fato é ou não é; ou existe ou não, e, para os mais céticos, ou é verdadeiro ou não. A dicotomia encontrada na ideia pensada por Hamlet nada mais é que uma simples proposição lógica.

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William Shakespeare

Uma questão implícita na própria pergunta, que não foi discutida por nosso olhar lógico, nos diz que ela não se detém no simples fato de sabermos ou não, mas principalmente na complexa possibilidade daquilo que, às vezes, mesmo se sabemos em algum momento poder ser, mas também não ser. Felizmente, não precisamos discutir a metafísica e nem mesmo a filosofia que pode estar contida nas ideias de Shakespeare.

Ainda assim parece muito confuso e é essa confusão que pode causar algum desespero em relação à parte de lógica nos concursos públicos. Pois bem, não se desespere. Vamos simplificá-la. Se discutíssemos se é verdade que a altura do maior monte do mundo é de 18 mil metros, poderíamos dizer que essa sentença é uma proposição mesmo não tendo a menor ideia da real altura do monte.

Não precisamos de inúmeras horas de pesquisa para chegarmos a uma conclusão e muito menos sabermos se a afirmação é correta ou não. Vamos agora ver a lógica sendo tratada em uma questão de uma prova de concurso público:

 

Questão do TJ/CE – 2008 – UnB/CESPEJ

Julgue o item que se segue.


A frase “No ano de 2007, o índice de criminalidade da cidade caiu pela metade em relação ao ano de 2006” é uma sentença aberta?

No caso do enunciado acima, será que o fato de o índice de criminalidade cair é realmente relevante para a questão? Será que o fato de sabermos se esse índice é realmente correto é importante para a questão?

Na verdade, essas questões não apresentam informações importantes para chegarmos à sua resposta. Neste caso, o mais relevante é prestarmos atenção à referência da cidade, ou seja, note que se nós não sabemos de qual cidade se trata, não temos como avaliar se esse índice é maior, menor ou até mesmo constante.

doubtPor exemplo: Se dissermos que a cidade em questão é a cidade do Rio de Janeiro, essa sentença seria uma proposição, mesmo não sabendo se ela seria verdadeira ou não, mas definitivamente seria uma proposição.

Nesse momento, peço desculpas a Hamlet, pois ser ou não ser, cair ou não cair pela metade, felizmente para nós, não é a questão! Como a questão não especifica qual é a cidade, nossa reflexão nos leva a uma sentença aberta.

Finalmente, quando nos depararmos com uma questão de concurso público com uma informação que foge do “ser ou não ser”, lembre-se que ela não é a questão de fato, pois o importante é ver se a questão pode ser qualificada como verdadeira ou falsa.

E você, o que achou desse modo de pensar? Tem algum exemplo parecido de uma prova que já fez? Já viu algo similar ao estudar raciocínio lógico-matemático?

 

Prof. Marco Antonio Lopes

Bacharel em Matemática pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar)
e mestre em Ciências da Computação e Matemática Computacional
pela Universidade de São Paulo (USP), com doutoramento em andamento.