Olá, concurseiro!

Você já percebeu, pelo título deste texto, que o assunto principal aqui é a escrita. Já posso dar um spoiler aqui no comecinho para chamar a atenção ao seguinte fato (e é fato mesmo!): independente do processo pelo qual você passou quando aprendeu a escrever, escrever é assumir responsabilidade pelo que está escrito.

Destaco isso porque a experiência que tenho como corretora, professora e tutora me permitiu ouvir diversas justificativas de alunos para as redações que produziam as quais podem ser enquadradas em 3 grupos: as que atribuem a culpa ao professor, as que conferem a culpa ao material didático e, por fim, as que concedem a culpa à escola.

Com essa divisão em grupos, não quero negar o impacto que o ensino tradicional tem nas nossas vidas quando praticamente nos “adestrou” a obedecer, a responder as questões no caderno, a procurar o conteúdo dos textos para fazer resumo, etc.. Também não quero exaltar o discurso de que nós sozinhos temos que nos esforçar para chegar ao sucesso porque também precisamos das condições necessárias para que isso aconteça.

O que pretendo é mostrar que o texto que escrevemos é, na verdade, uma resposta que dialoga com algum tipo de visão de mundo do que é escrever e qual o papel da escrita em nossa sociedade. É nesse sentido que falo sobre “responsabilidade”, isto é, referindo-se ao pertencimento a uma forma de lidar com a escrita.

Visto isso, não se trata de pensar em responsabilidade associada à culpa, mas vinculada ao papel de sujeito que delineamos quando escrevemos nossos textos. Para você ter uma ideia, essa questão dos papeis é forte para os elaboradores e corretores de uma prova de redação, pois já esperam três tipos de redações as quais terão, na correção, a gradação de notas conforme esses papeis.

É importante ressaltar que esses papeis assumidos em um texto se referem à imagem de um sujeito que escreve e não à pessoa real, certo? Aliás, há que se investir muito no amadurecimento, no estudo e no treino dessa imagem de sujeito e de autor que está sendo construída quando você escreve uma redação que será avaliada em um concurso, pois a redação (linguagem escrita) é a única possibilidade que os avaliadores terão de saber um pouco mais sobre como você se articula quando discute um tema.

Quais papeis a banca corretora já espera encontrar?

Confira, abaixo, os papeis já esperados pelas bancas avaliadoras e corretoras, a partir da redação que apresentam:

1. Sujeito que não investiu no planejamento e na execução das ideias

Redação abaixo da média

Aquele texto em que o trabalho de escrita mostrado pelo candidato revela um desconhecimento dos principais critérios de avaliação em uma redação, que são o tema, a estrutura do texto e a expressão. O texto fica confuso na abordagem do tema, na condução das ideias e nas palavras selecionadas para discutir o assunto.

Isso não significa que o candidato seja ruim, já que não se trata de uma questão pessoal, mas sim textual. Significa que, naquele momento, o papel de autor do texto assumido foi o de um sujeito (textual, revelado pela forma como ele disponibilizou a sua escrita para o leitor/corretor) que não investiu no planejamento e na execução das ideias apresentadas.

2. Autor que conhece os critérios, mas não saiu da “receita de bolo”

Redação na média

Aquele texto em que o trabalho de escrita mostrado pelo candidato revela a imagem de um autor de redação que conhece os critérios principais de correção de uma redação, mas que ainda não desenvolveu uma autonomia de discussão de ideias que saísse da “receita de bolo”. Ou seja, o autor coloca a estrutura da redação acima da forma de discussão do tema e a preenche como se estivesse respondendo a perguntas previstas sobre os elementos que precisam existir em um texto.

3. O autor que sabe o que dizer, para quem dizer e como dizer

Redação acima da média

Aquele texto em que o trabalho desenvolvido pelo autor da redação revela uma imagem de autor que usa a estrutura da redação a seu favor, isto é, ela existe mas o destaque se dá na forma como as ideias são conduzidas, articuladas e apresentadas ao leitor/corretor. A imagem deste sujeito que escreve (lembrando que não é a pessoa real, mas a textual) é percebida porque ele praticamente, pela forma como escreve, “pega na mão” do leitor e o leva a compreender a linha de raciocínio que ele quis seguir e as vantagens de ir por este caminho.

Para isso, ele investe na articulação entre as ideias, na citação de outros textos e leituras não previsíveis, na construção de metáforas pertinentes ao tema e na seleção cuidadosa de palavras para a construção da argumentação. Esse candidato sabe o que dizer, para quem está dizendo e como dizer as informações relacionadas ao assunto da redação.

Hábitos que você precisa desenvolver para escrever uma boa redação no concurso público

Para se chegar a uma redação acima da média, além de se ter em mente que é necessário treinar, ou seja, escrever muitas redações até você encontrar um ponto convergente entre sua forma de escrever e a exigência de uma proposta de redação, é necessário criar alguns hábitos (ou até mesmo ‘rituais’) que auxiliam nesse processo, tais como:

Fique antenado com os principais assuntos que estão acontecendo no nosso país e no mundo

Para isso, você precisa ler! Olhe aí a relação inseparável entre leitura e escrita! Mas saia do senso comum. Fuja dos textos que usam aqueles bordões de que “a culpa é do governo”; “o povo não sabe votar”; “a população tem que fazer a sua parte”, sem qualquer argumento forte para defender isso. Procure textos que reflitam a respeito das origens dos problemas, buscando as relações de causa e consequência, por exemplo.

Estude as possibilidades de associação de ideias, como metáforas, gradações, agrupamentos etc.

A nossa língua oferece muitos recursos para a escrita. Temos que investir tempo para estudar não só a parte gramatical mas também as possibilidades sintáticas, lexicais e semânticas para aprimorar a condução de ideias e nosso estilo de escrita.

Planeje seu texto antes de escrevê-lo

Isso é muito importante. Uma vez lida a proposta de redação com muito cuidado e atenção, podemos construir um projeto para nosso texto. Se seguirmos um projeto, ele ficará muito mais objetivo. Os corretores sempre falam que em um texto bom a gente consegue identificar um projeto bem conduzido. Você pode planejá-lo da forma como for mais fácil para você. Seguem dois exemplos de projeto que podem ajudar:

Exemplo A:

Tese: (normalmente a tese principal de um texto pode ser resumida em uma frase)

Parágrafo argumentativo 1: Argumento1 + exemplo/citação + fechamento

Parágrafo argumentativo 2: Argumento2 + exemplo/citação + fechamento

Introdução:

Último parágrafo:

Perceba que, neste esquema, a introdução, que corresponde ao primeiro parágrafo, está embaixo dos parágrafos argumentativos (que são os do meio da redação). Isso porque só podemos fazer uma boa introdução quando temos noção do texto todo. Por isso, no esquema, ela está fora da ordem, certo?

Exemplo B:

Faça parágrafos argumentativos claros e convincentes

Verifique se os argumentos selecionados para serem discutidos no meio do texto têm uma relação direta com a tese principal. Com isso, você deverá refletir se eles realmente são representativos para abordar o tema ou se são periféricos. Este trabalho reflexivo vai ajudar muito em uma abordagem mais madura do recorte temático proposto na prova de redação.

Leia as expectativas que as bancas do concurso divulgam

Todo o material divulgado pela banca elaboradora sobre a prova de redação é importante e deve ser lido na mesma relevância que o edital de um concurso. Isso porque lá você vai conhecer as expectativas da banca elaboradora da prova e o que ela espera que os candidatos façam de positivo na redação.

Preocupe-se com a imagem de autor que quer construir na sua redação

Isso pode ser cuidado lá na escolha dos argumentos, mas também, como disse acima, na familiaridade com que você produz uma redação. A sua escrita está mais presa à estrutura da redação ou está mais mobilizada a favor da discussão do assunto que pretende realizar? Se você não sabe responder essa pergunta, um bom corretor de redação pode te dar essa resposta.

Respeite as regras para a escrita da redação disponibilizadas nas provas dos concursos

Parece bobeira esta dica, mas confira o tanto de linhas disponíveis para a redação e não ultrapasse esse limite. Certifique-se também se a banca pede título na redação ou não. Isso pode tirar ponto ou anular a redação, dependendo do que a prova pede.

Conscientize-se de que a redação é parte importante da composição das notas dos principais concursos.

A redação é sim um critério de exclusão. Dependendo do concurso, você pode ser eliminado se não tirar uma boa nota em redação. Pense que o único contato que a equipe avaliadora do concurso pode ter com você é por meio das suas palavras dispostas no texto. Portanto, cuide bem deste cartão de visita (olha só a metáfora!).

Conte com leitores especializados para as sua redações.

Os corretores de suas redações são excelentes interlocutores porque apontam os lugares que precisam ser melhorados. Eles são uma espécie de termômetro. Confie nos feedbacks deles e faça deles um aprendizado para as próximas redações. Não se angustie e nem leve para o lado pessoal. Lembre-se que eles sabem o que deve ser escrito em uma boa redação e farão de tudo para ajudá-lo!

Bom, por ora é isso. Espero ter ajudado no seu processo de escrita e construção de imagem de autor na sua redação. Pratique bastante e sempre!!!

Profa. Aline Manfrim