Texto 1

Uma amiga me conta, na volta de uma viagem a Paris com a família. “Só quando estava lá é que percebi que minha filha estava, literalmente, andando na rua pela primeira vez”. A menina tem quatro anos. Classe média. Mora em São Paulo, num condomínio fechado. Do condomínio, vai de carro para a escola privada. Da escola privada volta para casa. No fim de semana, fica dentro do seu condomínio ou vai para outros condomínios, de casas ou prédios, cercados por muros ou grades, com guaritas e porteiros. Ou vai a shoppings, onde chega pelo estacionamento, de onde sai pelo estacionamento. Desloca-se apenas de carro, bem presa na cadeirinha, protegida atrás de janelas fechadas, vidros escurecidos com insulfilm. De muro em muro, a criança passou os primeiros quatro anos de vida sem pisar na rua, a não ser por breves e arriscados instantes. E apenas quando a rua não pôde ser evitada. E apenas como percurso rápido, temeroso, entre um muro e outro. 

A cidade é uma paisagem do outro lado do vidro, uma paisagem que ela espia mas não toca. O fora, o lado exterior, é uma ameaça. O outro é aquele com quem ela não pode conviver, tanto que não deve nem enxergá-la. Até mesmo contatos visuais devem ser evitados, encontros de olhares também são perigosos. Qualquer permeabilidade entre o dentro e o fora, entre a rua e o muro, seja na casa, na escola, no shopping ou no carro, ela já aprendeu a decodificar como intrusão. O outro é o intruso, aquele que, se entrar, vai tirar dela alguma coisa. Se a tocar, vai contaminá-la. Se a enxergar, vai ameaçá-la.

A rua, o espaço público, é onde ela não pode estar. E por quê? Porque lá está o outro, o diferente. E ela só pode estar segura entre seus iguais, no lado de dentro dos muros. (BRUM, E. Mãe, onde dormem as pessoas marrons? In: El país, 22/06/2016. Acesso em 24/04/2016)

 

Texto 2

… a cidade é uma paisagem que tem suas implicações sociais, mas também expressa os interesses do mercado imobiliário, subordinados aos interesses econômicos e sociais. Ela é o espelho das divisões de trabalho e os seus lugares produzidos são também locais de produção. Enfim, as relações de domínio social estão por trás do espaço construído e ele, em resposta, determina ou orienta a percepção humana. Por sua vez, o tecido urbano estrutura-se e modifica-se da mesma forma que a sociedade compõe-se e articula-se. Há uma intencionalidade social e econômica na espacialização da cidade. Mesmo que planejada e projetada, a cidade não é um produto pronto, imposto. A participação na construção da cidade se dá, no mínimo, pela procura de certos lugares. (…)Enfim, a cidade é uma interconexão de códigos não-verbais que expressam o desejo humano. O espaço-objeto conduz a conduta individual e comunitária, implicando em segregações territoriais como espelho das relações sociais. Ele nos mostra os valores ambientais humanos. É retrato da história – uma colagem de formas envelhecidas, reconstruídas, reformadas, demolidas e novas, de maneira que deve ser pensada como um processo e não como um estado. (Adaptado de DACANAL, C.. Acesso restrito: reflexão sobre qualidade ambiental percebida por habitantes de condomínios horizontais. 2004. 192 f. Dissertação (Mestrado em Geografia) PPG-Geografia. Universidade Estadual Paulista. São Paulo.)

 

Estamos cada vez vivendo mais entre muros e nos segregando dos espaço da rua, onde circula o diferente, onde podemos observar contrastes. Com base nos textos de apoio e no seu conhecimento de mundo, escreva um texto dissertativo-argumentativo sobre o seguinte tema:

Entre os muros: segregação do espaço urbano

 

Clique aqui para enviar sua redação para correção profissional!