Olá concurseiro! 

Provavelmente você já deve ter feito esta pergunta alguma vez na sua vida: como começar uma dissertação?

 

pasteEssa pergunta, apesar de parecer banal, é um dos pontos fundamentais para a organização das ideias no memento de redigir um texto. É fundamental se perguntar sobre o começo porque ele não é tão simples assim, não é apenas fazer a introdução. O início de um texto é, na verdade, é pensar no seu esqueleto. Estamos falando do projeto de texto.

Esse termo já é bem conhecido dos alunos do nosso site. Sempre reiteramos a importância de elaborar um projeto antes de escrever o texto de fato. É a partir do projeto que você conseguirá ter uma visão geral do texto e traçar um percurso argumentativo bem organizado para defender o seu ponto de vista.

 

cardsO modo de fazer o projeto de texto é particular de cada um, porém há alguns modelos que funcionam bem para a organização de uma dissertação. Como recebemos inúmeros pedidos para apresentar um modelo, vamos apresentar nesse post um modelo bem simples, mas que é o que funciona para mim. Reitero aqui que este é um modelo e, com a prática da escrita, logo você vai adquirir o seu próprio modo de organizar as ideias para fazer um projeto de texto. Vamos lá!

 

Vejamos, primeiramente, a proposta abaixo:

 

Texto 1

A onda de violência que vivemos hoje deve-se a incontáveis motivos. Um deles parece-me especialmente virulento: o desinvestimento cultural na idéia do “próximo”. Substituímos a prática de reflexão ética pelo treinamento nos cálculos econômicos; brindamos alegremente o “enterro” das utopias socialistas; reduzimos virtude e excelência pessoais a sucesso midiático; transformamos nossas universidades em máquinas de produção padronizada de diplomas e teses; multiplicamos nossos “pátios dos milagres”, esgotos a céu aberto, analfabetos, delinqüentes e, por fim, aderimos à lei do mercado com a volúpia de quem aperta a corda do próprio pescoço, na pressa de encurtar o inelutável fim. Voltamos as costas ao mundo e construímos barricadas em torno do idealizado valor de nossa intimidade. Fizemos de nossas vidas claustros sem virtudes; encolhemos nossos sonhos para que coubessem em nossas ínfimas singularidades interiores; vasculhamos nossos corpos, sexos e sentimentos com a obsessão de quem vive um transe narcísico e, enfim, aqui estamos nós, prisioneiros de cartões de crédito, carreiras de cocaína e da dolorosa consciência de que nenhuma fantasia sexual ou romântica pode saciar a voracidade com que desejamos ser felizes. Sozinhos em nossa descrença, suplicamos proteção a economistas, policiais, especuladores e investidores estrangeiros, como se algum deles pudesse restituir a esperança no “próximo” que a lógica da mercadoria devorou.

Jurandir Freire Costa. Folha de S. Paulo, 22/9/96 (com adaptações).

 

TEXTO 2

Inesgotável, o repertório do tráfico para roubar-nos a dignidade revive as granadas. Três delas ganharam a rua no curto intervalo de cinco dias, atiradas com a naturalidade de estalinho junino. Não explodiram por sorte, inabilidade ou velhice. Mas detonaram em nossas barbas o deboche repetido com a métrica cotidiana da violência: é guerra. Uma de suas raízes alimenta-se da disseminação de armas de fogo entre os traficantes, ferida aberta à sombra de varizes socioeconômicas, cuja cicatrização agoniza no mofo de desencontros e desinteresses políticos. Como o natimorto dueto entre os governos estadual e federal para reaver armamento militar em favelas do Rio: muita encenação, nenhuma palha movida. Doutor em combate, não precisa sê-lo para ver: urge desarmar o adversário. (Um adversário aparelhado até os dentes, cujo desplante avança como formiga no açúcar.) Caminho que exige a orquestração entre força e inteligência, prevenção e ataque — regidos pela convergência de esforços políticos, indispensável para se vencer uma guerra.

Editorial. Jornal do Brasil, 16/9/2004 (com adaptações)

 

Redija um texto dissertativo a respeito da violência, estabelecendo relações entre as ideias expressas nos textos I e II acima.

 

ideaEssa proposta pede que o candidato redija uma dissertação sobre violência, relacionando os dois textos de apoio oferecidos na prova. Como pode-se perceber, o tema geral “violência” é muito amplo, podendo ser abordado sob diferentes perspectivas: violência doméstica, violência de Estado, violência urbana, relação entre jogos de videogame e violência, bullying e violência, etc. Para restringir essa abordagem, a proposta oferece dois textos de apoio retirados de dois jornais bastante conceituados e pede que o candidato aborde este tema relacionando as ideias presentes nos dois textos, restringindo, assim, as possibilidades de abordagem. Dessa forma, o primeiro passo é destacar essas ideias:

 

Texto 1: nesse texto, a ideia central é de que, atualmente, damos mais valor à individualidade do que à relação com o outro (o próximo). Para o autor, os valores foram subvertidos, pois deixamos de valorizar as questões humanas e passamos a priorizar questões econômicas, e essa subversão de valores é um dos principais motivos da onda de violência que vivemos hoje. Perceba que este texto tem muitas questões implícitas, que o autor não desenvolve. Essas questões implícitas, além da ideia central do texto, podem te ajudar a guiar sua redação. Vejamos algumas possibilidades:

  1. Substituição da ética pelos cálculos econômicos: corrupção que pode gerar violência (da polícia, entre políticos, morte por dívidas, etc.).
  2. Enterro das utopias socialistas: significa o triunfo do capitalismo que tem como um dos seus princípios a competitividade. Esta provoca o individualismo (que se opõe à preocupação com o próximo) que, por sua vez, provoca as desigualdades sociais que podem levar à violência (vista como única forma de conseguir aquilo que não se pode comprar).
  3. Transformação de analfabetos em delinquentes: a falta de educação faz com que a pessoa tenha menos possibilidades de ter uma vida mais confortável financeiramente, o que pode, por sua vez, em alguns casos, levá-la ao mundo do crime, aumentando, assim, a violência.

 

Texto 2: esse texto tem como foco a questão do tráfico de drogas e, principalmente, o fortalecimento das quadrilhas do tráfico pelo fácil acesso a armas. O editorial afirma que vivemos hoje uma guerra e que o Estado precisa ter mais vontade política para enfrentá-la, o que não se observa atualmente. O próprio fato de os criminosos terem acesso fácil às armas mostra a falta de vontade política em resolver a questão.

Depois de destacar as ideias presentes nos dois textos, o segundo passo é observar as relações que você pode estabelecer entre elas e definir qual será o fio condutor do seu texto. É claro que você não precisa abordar todas elas, basta escolher duas ou três e relacioná-las de modo coerente em defesa de uma tese.

Uma possibilidade de abordagem seria discutir o aumento da violência urbana no Brasil, pensando nas suas motivações. Para isso, você poderia, por exemplo, traçar o seguinte projeto de texto:

 

  • Tese: a violência urbana está ligada à posse de armas e à substituição dos valores morais pelos valores econômicos.
  • Argumento 1: sociedade capitalista é individualista – valorização do dinheiro em detrimento das relações sociais – valorização de bens materiais/banalização da vida (aumento dos roubos) + corrupção da polícia e do Estado.
  • Argumento 2: a corrupção dos agentes que deveriam proteger a população permite que o crime se fortaleça – fácil acesso a armas – falta de combate ao tráfico de armas – o Estado não age como deveria.
  • Conclusão: Repensar os valores da sociedade atualmente – agir em prol da diminuição das desigualdades – combater a corrupção e o tráfico de armas – construir uma sociedade mais justa para acabar com a violência.

 

create_newEsta é apenas uma possibilidade de se abordar este tema, mas você pode desenvolver outras. Tente fazer este exercício: faça diferentes projetos de texto estabelecendo relações distintas entre as ideias presentes nos dois textos, variando as ideias selecionadas. Com este exercício, você irá perceber como um mesmo tema pode ser abordado de diferentes maneiras e isso te deixará mais preparado para a prova, pois você terá desenvolvido duas habilidades importantíssimas para qualquer prova de redação: recortar e selecionar ideias.

 

Bons estudos!

Profa. Fernanda D’Olivo